HISTÓRIA DE SEU DODÓ COM A ILHA

O fato de ter nascido em Fernando de Noronha sempre foi um diferencial pra mim. Quando nasci, em 1948, e por mais quarenta anos, o arquipélago, como Território Federal, era uma unidade da federação. Até capital tinha, a Vila dos Remédios. No pós guerra e até a década de 1980, o contingente populacional insular girava em torno de 1.000 a 1.300 pessoas. Nativos mesmo, aqueles que lá tem seus umbigos enterrados, sempre fomos muito poucos. Entre os que lá nasceram e que lá ainda vivem, hoje eu sou o segundo mais velho, ficando “seu” David, meu irmão, nascido em 1932 com a “pole position”. Portanto, fui e sou uma raridade demográfica. Fui o primeiro nativo a ter diploma de nível superior (Engenheiro Agrônomo), a ter Mestrado e Doutorado.

Minha historia com Fernando de Noronha começa em 1.916 quando meu pai, um jovem com 21 anos, aqui desembarca para cumprir sentença de 19 anos e meio de prisão, por homicídio. Entre 1737 e 1942, minha terra foi um dos mais terríveis presídios do Brasil, verdadeiro desterro. Desde meu pai, nestes mais de 100 anos os olhos da família viram Noronha se transformar física, social e economicamente. Vimos, pela janela de nossa casa, Noronha ser envolvida e ser importante nas duas Guerras Mundiais, serviu de apoio as pioneiras travessias oceânicas aéreas de bravos e loucos aviadores. Assistimos, também, o presídio comum virar presídio para comunistas e integralistas nos anos 30 e outra vez receber presos políticos pós 1964. Acolhemos os americanos em 1942 (base da Marinha Americana, 2ª guerra). E em 1957, como Posto de rastreamento de foguetes teleguiados que os gringos lançavam a partir de Cabo Canaveral. Era o inicio da corrida espacial entre russos e americanos, durante a chamada Guerra Fria. E Noronha inserida nesse jogo geopolítico internacional.

A federalização da Ilha em 1942 e o fim do presídio, o exercito brasileiro governando-a por mais 40 anos, permitiu a infra-estruturação de Noronha, com a geração e distribuição de energia elétrica, captação e distribuição de água, e coleta de lixo e esgoto e implantação de sistemas públicos de educação e saúde. O turismo somente passa a ser pauta econômica para os ilhéus e noronhenses quando os alojamentos deixados pelos americanos no Boldró, foi transformado em hotel. Era algo bem modesto, cerca de 100 turistas que ficavam de sábado a sábado em Noronha. Porém, isso permitiu que algumas pessoas fossem galgando sua independência financeira, numa época em que quase todos, direta ou indiretamente, dependiam do Governo Territorial.

Desentendimentos entre as altas esferas militares sobre governar Fernando de Noronha, provocaram a transferência do comando do Território, do Exercito para a Aeronáutica (1981). A persistência das divergências entre os militares faz com que o Governo Federal entregasse Noronha ao Ministério do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA) em 1986. Por força de Lei Federal de junho de 1987, Fernando de Noronha como os demais territórios federais existentes à época, passa a se subordinar ao Ministério do Interior. O primeiro e único governador civil do Território Federal foi o Jornalista Fernando Cesar de Moreira Mesquita, pessoa de estreita relação pessoal e de confiança do Presidente da Republica, José Sarney. O governo de Mesquita estabeleceu uma gestão voltada para resgate da plena cidadania dos noronhenses, envolvendo-os em sua administração, ampliando e melhorando as condições de educação, saúde moradia e infra-estrutura viária, portuária. Privatizou todas as atividades econômicas ligadas até então ao governo, como pesca e agropecuária. Surgem as primeiras normas ambientais para se contraporem aos potenciais danos que um turismo já em expansão poderia causar. Participei, como Secretario do Território, de todas estas ações. O Governo Federal de Fernando de Noronha se encerra a 05 de outubro de 1988, com a promulgação da nossa atual Constituição Federal que extinguiu o Território Federal e re-anexou o arquipélago a Pernambuco. No apagar das luzes da administração federal (14 de setembro de 1988) é criado o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, que implantei na condição de seu primeiro Diretor.

Ao receber Fernando de Noronha em seu especo geo-político-administrativo, Pernambuco estabelece sobre o arquipélago um “Distrito Estadual”, forma de governo “sui generis”, pelo qual o Governador do Estado nomeia com prévia aprovação da Assembléia Legislativa, um Administrador Geral, sem mandato. Por seu turno, a comunidade insular elege um Conselho Distrital, de caráter apenas consultivo, com algumas prerrogativas de fiscalização. A convite do governador Joaquim Francisco (1991/94), tive a honra de ser o primeiro e único nativo, até o presente a governar Noronha. Minha aposentadoria como professor universitário federal me permitiu fixar residência permanente em Noronha desde o final dos anos 1990. Aqui, além de empresário, desenvolvo atividades que envolvem os aspectos sociais, econômicos e ambientais de Fernando de Noronha.